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Relações de Gênero
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A Crise do Masculino
Marcelo Augusto Veloso
19/07/2010 - 15h01m

Gostaríamos de começar este texto lembrando uma estrofe de uma canção (Formigueiro) do compositor e cantor Ivan Lins:

 

Tanto furo, tanto rombo, não se tapa com biombo.

Não se esconde o diabo deixando de fora o rabo . E pros homens não tá fácil de arrumar tanto disfarce, de arrumar tanto remendo, Se tá todo mundo vendo.  

Parece estranho que se ouse falar sobre uma crise do masculino. Não têm sido as mulheres que têm vindo a público fazer denúncias e reclamar direitos? Os homens não estão muito bem, obrigado? E há muito séculos? Diante dessas indagações, os homens, realmente, estão vivendo alguma crise? Nós, os homens, por milhares de anos, não nos imaginamos e temos sido vistos como pessoas fortes? Como dizia Gilberto Freire[1], não temos sido "o sexo nobre e forte" em oposição "ao sexo belo e frágil"? Talvez seja difícil, de fato, que mulheres e, especialmente, homens admitam uma crise do masculino. No entanto, uma leitura que pode ser feita da canção de Ivan Lins admite essa possibilidade - supondo que ele quando fala "homem" não esteja utilizando esse termo na compreensão que a linguagem do cotidiano e das ciências costumam exprimir: totalizador do conjunto de homens e mulheres, escamoteando, dessa maneira, as diferenças entre os gêneros, empregando-o como uma espécie de metonímia; "e pros homens não tá fácil de arrumar tanto disfarce, de arrumar tanto remendo, se tá todo mundo vendo." 

Que disfarces, que remendos seriam estes que os homens têm tentado arrumar e que seriam sintomas da tentativa de colar "os cacos do Velho Mundo"(Marina Lima, cantora e compositora brasileira)? E, mais grave, estariam à mostra para todo mundo? 

Até pelo menos três décadas atrás, com raras exceções, pois sempre houve homens e mulheres que romperam com o estabelecido como sendo o natural/normal na sociedade ocidental para os gêneros, uma sã pessoa jamais poria em questão as posições do homem e da mulher na sociedade. Há milhares de anos que a nossa formação sócio-cultural tem afirmado, com veemência, chegando mesmo à violência física, psíquica e teórica[2], uma hierarquia do sexo: há um sexo superior - o homem - e um sexo inferior - a mulher. Assim tem se formado a estrutura sexista das nossas sociedades ocidentais. 

A cultura brasileira, entre outras raízes (a negra e a indígena), possui, pelo fato de ser também ocidental, como formação, a herança que vem da cultura grega, através do Império Romano do Ocidente, e a herança judaico-cristã que chega através do catolicismo romano e, posteriormente, das demais igrejas cristãs. Em ambas essas tradições, sempre se afirmou a hierarquia sexista. 

Se remontarmos à herança grega, vamos nos encontrar com o genial Platão que introduziu, quase que de maneira indelével (pois, após 25 séculos, ainda nos encontramos tatuados pela sua influência) um dualismo fatal. Justiça seja feita, claro que não devemos imputar a Platão, unicamente, uma reflexão de tipo hierárquica (incluindo o machismo). Ele já era tributário da sua sociedade. Segundo ele, existem coisas que são inferiores, desprezíveis e outras que são superiores e que devem ser desejadas. Do lado das inferiores estão as coisas sensíveis, o nosso corpo, os escravos e as mulheres. Do lado das superiores e desejadas, estão aquelas coisas que são inteligíveis, racionais, espirituais, a alma e os homens que têm condições de ascender a este mundo superior. 

Aristóteles, aquele "que ainda sustenta o Ocidente" (Caetano Veloso, cantor e compositor brasileiro), ao escrever sua obra sobre a Política, faz as seguintes declarações: 

"... pois o varão é por natureza mais adequado para mandar que a mulher... É verdade que, na maioria dos casos de governo republicano, o governante e o governado se intercambiam ... mas o varão mantém-se continuamente nessa relação com a mulher..". (Política i. 1259b). 

E ainda: 

"... Também como entre os sexos, o macho é por natureza superior e a fêmea inferior, o macho governa e a fêmea é sujeita..." (Política I. 1254b).
Se dermos uma rápida olhada na tradição judaica, vamos encontrar o exemplo dos homens judeus que, diariamente, agradeciam a Javé, seu Deus, em oração, por não ter nascido mulher.  

 

O Rabi Jehuda disse que se deve fazer três preces todo dia: 

"Bendito seja Deus que não me fez gentio.
Bendito seja Deus que não me fez mulher.
Bendito seja Deus que não me fez ignorante.
Bendito seja Deus que não me fez gentio:
"porque todos os gentios são nada diante dele"(Jeremias 40,17)
Bendito seja Deus que não me fez mulher:
Porque a mulher não está obrigada a cumprir os mandamentos.
Bendito seja Deus que não me fez ignorante:
Porque o ignorante não se envergonha de pecar.
 

E diz o historiador judeu Flávio Josefo:

"A mulher, diz a lei, é em tudo inferior ao homem. Que elas sejam, por isso, submissas não para sua humilhação, mas para que sejam dirigidas, pois a autoridade foi dada por Deus ao varão (Contra Apião, II). 201). 

Na origem do cristianismo, que vai ser um dos grandes plasmadores da cultura ocidental, vamos nos defrontar com o cruzamento dessas tradições: a grega e a judaico-cristã. No final do primeiro século da nossa era, Paulo, o apóstolo, o grande elaborador e articulador das primitivas comunidades cristãs, foi suficientemente ambíguo diante dessa questão. Claro que não podemos e não devemos atribuir-lhe unicamente as conseqüências advindas sobre essa temática. Diante da mensagem da igualdade entre homens e mulheres para a qual o movimento de Jesus apontava, Paulo intui que não há judeu nem grego, nem escravo nem pessoa livre, nem homem nem mulher, pois todos são iguais diante de Cristo (Carta aos Gálatas, 3,28).No entanto, incompreensivelmente ele não tira as conseqüências da sua intuição. Pelo contrário, afirma, paradoxalmente e ao mesmo tempo, a superioridade do homem sobre a mulher: o homem é a cabeça da mulher; as mulheres devem calar nas reuniões da comunidade (Cartas aos Efésios, 5,21-33 e Coríntios, 11, 2-16; 14, 34-35). Essa ambigüidade de Paulo vai favorecer a tendência machista da sociedade judaico-cristã, já marcadamente sexista e patriarcal. Pouco a pouco, nas primitivas comunidades cristãs, os homens vão assumindo a posição de chefia e as mulheres vão sendo relegadas a simples colaboradoras deles, quando, efetivamente sabemos da existência de mulheres que eram chefes de comunidade no mesmo nível dos homens. 

A partir do século II, os primeiros teólogos/filósofos da igreja cristã, evidentemente a essa altura, todos homens e, geralmente, chefes/bispos de comunidades, vão fazer o cruzamento entre essa tradição vencedora, sexista e patriarcal, com a filosofia grega, notadamente com a filosofia platônica que oferecia as condições filosóficas favoráveis para fundamentar essa relação hierárquica entre o homem e a mulher. 

Desse modo ia se estabelecendo a nossa cultura com os traços sexista, patriarcal e androcêntrica, e que tem sido hegemônica até os dias de hoje. Cultura sexista pelo fato de transformar a diferença entre homem e mulher em desigualdade; patriarcal porque tem poder quem é superior, isto é, o homem; androcêntrica porque o homem é colocado como centro da sociedade, a partir do qual tudo deve ser visto, isto é, a perspectiva a partir da qual deve se olhar a sociedade é a do homem[6]. A conseqüência mais grave, talvez, dessa caminhada histórica é uma construção sócio-cultural ter sido transformada, por parte da filosofia, em uma realidade natural, e, por parte da teologia cristã, em uma realidade criada por Deus. Assim ficamos algemados, como Prometeu à montanha. Quem poderia contrariar a natureza? Perturbá-la é ir de encontro à ordem natural das coisas. Quem poderia contrariar a vontade do Deus cristão criador? Perturbá-la é ir de encontro a uma vontade infinitamente boa, bela, justa, onisciente, onipotente; somos tão pequenos e pequenas para "peitar" essa tarefa. O mito de Adão e Eva está aí para nos advertir qualquer ousadia contra a vontade de Deus. A Idade Média, tão injustamente esconjurada, à parte de significativas contribuições para a humanidade ocidental, vai sacralizar essa posição.  

Esta visão, de algum modo totalizadora (pois globaliza uma perspectiva), infiltrou-se em todas as dimensões da sociedade, seja no nível individual, sejas nas instituições sociais. Homens e mulheres, no nível individual e no nível social, têm reforçado, mutuamente, essa visão totalizadora: cada pessoa individualmente introjeta e projeta a desigualdade; nas relações que se estabelecem na instituição do casamento, na família, na educação informal e formal, na produção do conhecimento, na organização econômica, na organização política, na organização e reflexão das igrejas cristãs e, hoje, nas diversas religiões. Todos esses níveis têm partido da perspectiva do homem (androcentrismo) e têm sido chefiados pelo homem (patriarcalismo).  

Como já foi dito, durante a caminhada histórica do Ocidente, houve exemplos isolados de homens e mulheres que romperam com essa estrutura, às vezes pagando um alto preço pela ousadia de contrariar o suposto natural e querido pelo Deus cristão. No entanto como um movimento contestador de amplitude social desse status quo, tivemos que esperar o século XX e, mais intensamente, a segunda metade desse século. 

Claro que é incorreto tentar explicar um fenômeno social apenas por uma causa. Seria muita pretensão, pois a realidade humana e social é um todo tão complexo que possui na origem da sua dinâmica várias condições ou variáveis. Apesar de cientes disso, gostaríamos de destacar, para entender o que tem acontecido com as mulheres e os homens ocidentais, duas condições que, se não são as únicas, são, no entanto, fundamentais. Aqui gostaríamos de nos limitar ao caso brasileiro.  

Em primeiro lugar, destacaríamos a entrada da mulher no mercado de trabalho. Essa nova realidade sócio-econômica mexeu profundamente com a mulher, como também com a relação entre mulher e homem. A ancestral divisão entre o espaço da casa e o espaço da rua, o primeiro sendo da mulher e o segundo sendo do homem, vai perdendo sua delimitação tão rígida e vai criando novas situações na relação mulher/homem. Começa a desconstruir valores bastante sedimentados. A mulher vai fazendo a experiência da sua capacidade de desempenho profissional fora das quatro paredes domésticas.
Em segundo lugar, chamaríamos a atenção para o acesso da mulher à educação escolar e, posteriormente, à possibilidade de produzir conhecimento. Sem querer entrar em detalhes, esta nova situação social começa a abrir rachaduras na estrutura até então vivida pela sociedade. Começa a se evidenciar, do ponto de vista sexista, que a mulher não é tão inferior e frágil como se imaginava; do ponto de vista patriarcal, que não apenas o homem pode ser o único provedor da família; do ponto de vista androcêntrico, que a sociedade não pode ser vista apenas a partir de uma perspectiva, mas que há um olhar diferente do olhar do homem. É claro que tudo isso é muito ambíguo e continua sendo nos dias de hoje. Uma cultura ancestral não se muda num piscar de olhos. Nós nos tornamos pessoas na medida que vamos nos confrontando com o outro. Cada homem e cada mulher vai se tornando o que é no confronto dessa relação. Se, a partir desta nova situação, a mulher vai se modificando no seu modelo de mulher, necessariamente, vai ter que começar a existir um novo rearranjo entre homem e mulher, pois os dois não são mais os mesmos de épocas anteriores. Inicia-se um processo de ameaça aos modelos de homem e de mulher, anteriormente estabelecidos. Cremos que esta nova situação pode remontar a uns cinqüenta anos atrás.
 

Mas parece que a ameaça maior para homens e mulheres data das três últimas décadas. Este seria um terceiro ponto. A experiência acumulada pelas mulheres "fora de casa", no mercado de trabalho, nas instituições de produção de conhecimento, veio desembocar numa militância política: por um lado, a reivindicação de direitos ( a Declaração dos Direitos Humanos ainda não leva em conta as diferenças entre os gêneros, apesar de ter sido um avanço para o Ocidente); por outro, um embate intelectual. É o já conhecido movimento feminista. O movimento passa a perceber que certos direitos concedidos aos homens não podiam ser exclusivos seus; além deles, por conta da diferença entre mulher e homem, elas teriam acesso a buscar direitos próprios. Se olharmos o embate intelectual, a grande "sacada" (insight) das intelectuais feministas - e dos intelectuais homens que aderiram a este movimento - foi desmascarar como natural e desejada por Deus a estrutura que até então era vigente. Passam a mostrar que não existe o homem, como não existe a mulher; mas o que existe é um construto social para o sexo masculino e outro para o sexo feminino, dentro do qual homens concretos e mulheres concretas têm que assumir para desempenhar suas funções na sociedade. E que esses construtos, estavam fundamentados, milenarmente, na tríade sexista, patriarcal e androcêntrica. Alguém tirava vantagem desta situação - evidentemente, os homens. Uma vez que esses construtos foram desenraizados da natureza e da criação divina e colocados no chão histórico, o próximo passo era evidente: a desconstrução dos construtos. Essa investida feminista foi fatal para os homens, pois descobriu que o rei estava nu. Com certeza, os homens foram colocados numa situação muito incômoda, pois não podiam mais apelar para a natureza e nem para a criação divina para sustentar sua hegemonia na sociedade. 

Evidentemente, não devemos tributar, unicamente, ao feminismo a situação que está sendo chamada de crise do masculino. Cremos que ela vem num bojo muito mais amplo e complexo de transformações sócio-culturais que podemos datar de 30 anos atrás: a crise da modernidade, que tem tido como marco simbólico a revolta estudantil na França e nos Estados Unidos, na década dos anos 60. O feminismo e a crise do masculino são já efeitos da pós-modernidade.
Tentemos descrever, a partir de agora, o que tem marcado o modelo de homem construído através de milhares de anos.
O modelo de homem que gerações sucessivas de meninos e de adolescentes do gênero masculino têm aprendido a ser é, numa palavra, de uma pessoa superior às do gênero oposto. Esta superioridade se explicita em vários níveis.  

A superioridade masculina está presente em duas áreas de fundamental atenção para a formação homem: o trabalho profissional e a sexualidade. Do ponto de vista do trabalho, o homem deve ser, continuamente, bem sucedido. Ele deve ter um trabalho considerado superior em relação ao trabalho da mulher, obter um salário superior ao dela (a questão econômica mexe com a relação de poder entre os dois) e sempre ter sucesso profissional. É isso que o garoto aprende, e é isso que, posteriormente, ele vai se cobrar e os que estão em torno dele, homens e mulheres, lhe cobrarão. Além do mais ele é formado, se não para ser o único provedor da família, pelo menos o principal. Isso tem sido fonte de conflitos entre maridos e esposas no casamento, quando não tragédia para o próprio homem que não consegue corresponder a essa expectativa. Um adendo que poderia se acrescentar aqui é a divisão entre a casa e a rua. O espaço do homem é o espaço da rua, sendo o espaço da casa o da mulher. Daí o trabalho masculino ter que sempre ser na rua, de casa ele nada entende. O homem que se aposenta tende a passar por uma crise, pois tem que passar mais tempo em casa, espaço que não é o dele e onde ele não encontra o seu lugar, pois não foi educado para isso. 

Outra dimensão do homem, a sexualidade, é motivo de atenção e preocupação para a família, desde a sua infância. Claro que nesta reflexão não se pode separar da sexualidade a educação do corpo do menino. Desde a mais precoce infância, há um investimento no pênis do menino através de brincadeiras que são manifestação de carinho neste órgão que vai se tornando o grande e, praticamente, único símbolo de que o menino é macho. Quase que o resto do corpo desaparece, é dessexualizado diante deste símbolo. Quase que se poderia dizer que o corpo do menino, posteriormente do adolescente e do adulto, é genitalizado. O homem só passa a reconhecer como fonte única de prazer o seu próprio pênis. O restante do corpo quase que se torna insensível. A sua relação sexual tenderá a ser excessivamente pobre porque seu corpo só terá um foco de prazer. Daí que a impotência se torna num grande fantasma que ronda os homens. Sofrer alguma impotência significaria não ser homem, ou deixar de sê-lo. Jamais, ou quase nunca, um homem falará desse tipo de experiência para outro homem ou para uma mulher. Seria confessar o máximo de inferioridade a que teria chegado. O Viagra veio desvelar quão comum é entre os homens essa experiência. Um fantasma que ronda a família em torno de um menino é a sua orientação sexual. Todos ficam vigilantes para saber, a tempo de corrigir (?) se for o caso, a sua orientação sexual. Na adolescência, especialmente, o garoto tem que evidenciar provas de que ele é realmente macho, isto é, ele é capaz de relacionar-se sexualmente só com mulheres. Isso dificulta o homem a não desenvolver amizade com outro homem; a amizade entre homens é, normalmente, superficial e isenta de proximidade. Há histórias trágicas em torno dessa questão. Se sua orientação sexual não é a esperada dentro do paradigma do macho, o que normalmente acontece é repressão, censura, exclusão, isolamento. A família respira aliviada quando acontece o contrário. Acontece, no entanto, que a experiência sexual do adolescente, normalmente, não é resultado de um aprendizado afetivo, nem de um corpo sexualizado, mas sim atestado de ser macho. Como diz Jorge Amado em "Capitães de Areia", é derrubar as meninas na areia do cais. Daí por diante, como acontece com o trabalho profissional, o homem terá que ser sempre bem sucedido com as mulheres. O seu sucesso se mede pela quantidade de mulheres que ele derruba e pela quantidade de orgasmos que tem. Há um personagem de Jorge Amado cujo prazer, um deles, era colecionar o número de "cabaços" que ele tinha "derrubado". 

Este parece ter sido o modelo de homem que a nossa cultura tem gestado: racional, forte, poderoso, bem sucedido, não tanto afetuoso e delicado. Um homem verdadeiro, isto é, macho, tem que assumir esses traços. É o que lhe cobram, é o que ele se cobra. Qualquer "desvio" dessa norma significa para ele, internamente, um conflito; se esse "desvio" é explicitado, os outros e as outras levantarão suspeitas sobre se ele é ou não um homem verdadeiro. 

Acontece, porém, que nestas últimas décadas tem surgido uma nova geração de homens que têm questionado esse padrão. É verdade que quantitativamente não deve ser um grande número, mas o suficiente para tomar distância crítica desse modelo. Chegaram à consciência que eles têm que, em alguns casos evidentemente, pagar um preço muito alto para ser homem neste modelo. O preço a ser pago seria de renunciar ao desabrochar de valores humanos que eles acham legítimos, que os fariam mais plenamente pessoas humanas, pessoas mais ricas humanamente. Eles gostariam de ser homens "por inteiro e não pela metade", como dizem os Titãs. 

Quais perspectivas se abrem para os homens, no sentido de se hominizar de modos diferentes? É difícil apontar perspectivas. No entanto, aqui e acolá surgem manifestações de homens que não colam mais com o modelo tradicional. Esperemos o acumular dessas manifestações para ver para onde elas apontam. Esses homens diriam, talvez, como os modernistas da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922): "Nós sabemos o que não queremos, não sabemos o que queremos". No mais, retomaríamos, às avessas, o que disse Freud sobre as mulheres. O que é o homem? Um continente negro. Cabe aos artistas, aos poetas, aos escritores dizer o que ele está sendo. 

Autor:
Marcelo Augusto Veloso
João Pessoa, 1999.
Ele, o homem, é racional, pois a racionalidade, na tradição ocidental, é o que há de mais nobre na pessoa humana. Racionalidade é o oposto de sensibilidade, a parte menos nobre da pessoa. Portanto, ele deve fazer o aprendizado de tomar distância, de camuflar a sua sensibilidade para ser verdadeiro homem. Ligado a esse contexto, o homem é muito pobre na expressão de seus afetos. Ele é treinado para não exprimir demonstração de afeto. Isso significa que ele não aprende a ser afetuoso com as outras pessoas, com as mulheres e, muito menos, com outros homens. Vejam, por exemplo, a relação de um pai com um filho; não há grandes efusões afetivas como se permite entre um pai e uma filha. Se o homem deve tender a não demonstrar afeto, ele também não deve dar a entender que está precisando de afeto, está carente. Aparecer assim é não demonstrar que é forte, é estar do lado da fragilidade, do sexo frágil. Haja vista a recomendação mais antiga que homens e mulheres adultas dizem para os meninos, se eles choram: "Homem não chora!". Homem não chora, porque o homem é forte. Chorar é coisa de mulher e daqueles que, confusamente costumamos dizer que não são homens, são gays. 




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