A Organização Mundial de Saúde disponibiliza o "Manual de intervenção breve para problemas decorrentes do uso de álcool: um guia para profissionais das áreas sociais e de saúde".
As intervenções breves têm demonstrado ser efetivas e se tornado cada vez mais valiosas no gerenciamento de indivíduos que apresentam comportamento de uso nocivo do álcool, preenchendo uma lacuna existente entre a atenção primária à saúde e os tratamentos especializados para pessoas com graves problemas decorrentes do uso de álcool. A intervenção breve é importante também no encaminhamento destes pacientes para serviços especializados.
O objetivo do manual é ajudar profissionais dos serviços de atenção primária à saúde (médicos, enfermeiras, agentes comunitários de saúde, entre outros) a lidar com pessoas que apresentam problemas decorrentes do uso excessivo de álcool. Ligando o conhecimento científico com a prática clínica, a publicação descreve como conduzir uma intervenção breve neste tipo de paciente.
O guia pode ser útil também para profissionais da área social como assistentes sociais, conselheiros do sistema judiciário, profissionais de saúde mental ou qualquer outro profissional que lide com pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool.
O manual foi planejado de modo a ser utilizado em conjunto com um outro documento que instrui os profissionais a aplicarem um questionário breve que investiga os problemas relacionados ao uso de álcool. Este documento é intitulado "Teste para a identificação de problemas decorrentes do uso de álcool (AUDIT): instruções para uso por profissionais do nível primário de saúde"
O que é a intervenção breve?
Intervenções breves não têm como objetivo tratar pessoas dependentes de álcool, as quais geralmente requerem tratamentos mais longos, intensivos e especializados. Este modelo de intervenção visa identificar os problemas reais e potenciais decorrentes do uso de álcool e motivar os indivíduos a mudarem seu comportamento.
Apesar da importância deste tipo de intervenção, alguns profissionais de saúde relutam adotar em sua rotina a investigação sobre as características do uso de álcool por seus pacientes.
Tipos de intervenção breve de acordo com a pontuação no "Teste para a identificação de problemas decorrentes do uso de álcool" (AUDIT):
| Nível de risco | Tipo de intervenção | Pontuação no AUDIT |
| Zona I | Educação para o uso de álcool | 0-7 |
| Zona II | Aconselhamento simples | 8-15 |
| Zona III | Aconselhamento simples mais psicoterapia breve e monitoramento contínuo | 16-19 |
| Zona IV | Encaminhamento para especialista para avaliação diagnóstica e tratamento | 20-40 |
Obs: Estas classificações segundo os pontos atribuídos no AUDIT podem variar dependendo dos padrões de uso de álcool vigentes nos diferentes países, da concentração alcoólica das bebidas consumidas e da natureza do programa onde o paciente é testado. O julgamento clínico deve ser utilizado para a interpretação dos resultados do teste e para modificar estas recomendações, especialmente quando a pontuação variar entre 15 e 20.
Profissionais de atenção primária à saúde estão em posição privilegiada para identificar e intervir em pacientes cujo consumo de bebidas alcoólicas tornou-se problemático e danoso. Eles podem também desempenhar um importante papel na motivação e encaminhamento de pacientes dependentes de álcool para tratamento.
Infelizmente alguns profissionais de saúde relutam em examinar e orientar pacientes sobre seus problemas decorrentes do uso do álcool. Os motivos alegados para este tipo de atitude em geral são a falta de tempo e de treinamento específico, o medo de ser visto como hostil pelos pacientes, a percepção de que este tipo de procedimento não faz parte de suas funções e a crença de que alcoolistas não respondem ao tipo de intervenção que pode ser dada no nível primário de atenção.
Cada uma das razões abaixo constitui uma concepção errônea e contradiz as evidências científicas sobre a abordagem de pacientes com problemas decorrentes do uso do álcool:
Falta de tempo
Uma preocupação comum entre profissionais de saúde é que o exame e a intervenção breve vão requerer tempo demais. Tal argumento falha em dar a apropriada importância para o impacto do uso de álcool sobre a saúde de muitos pacientes e superestima o tempo requerido.
Já que o uso de álcool é o principal responsável por vários problemas de saúde encontrados no nível de atenção primária à saúde, a intervenção breve pode fazer parte da rotina clínica sem que requeira aumento significativo no tempo de consulta. O teste para a identificação de problemas decorrentes do uso de álcool (AUDIT) é de auto-preechimento e pode ser distribuído para os pacientes juntamente com os outros formulários que são usualmente preenchidos na admissão ou ser incorporado a anamnese feita pelo médico. O tempo médio para o preenchimento deste questionário é de 2 a 4 minutos. A pontuação e interpretação não levam mais do que um minuto e, calcula-se, que em torno de 5 a 20% dos pacientes necessitarão de uma intervenção breve.
Treinamentos específicos
Muitos profissionais não se sentem capacitados para examinar e orientar pacientes com relação aos problemas decorrentes do uso de álcool.
Não apenas o treinamento para a utilização do teste e realização de intervenções breves é simples e fácil, como também é possível treinar apenas uma pessoa do serviço para que ela fique responsável por este tipo de procedimento e reduza a sobrecarga sobre outros membros da equipe.
Este tipo de procedimento não faz parte das funções do profissional e do serviço
Esta concepção é errônea, pois contradiz as evidências que mostram que o uso abusivo do álcool está relacionado a uma enorme variedade de problemas de saúde. Estes problemas não só afetam a saúde dos indivíduos como também a saúde familiar, comunitária da população em geral.
Alcoolistas não respondem ao tipo de intervenção que pode ser dada no nível primário de atenção
Alguns profissionais de saúde confundem todas as formas de uso excessivo de álcool com o alcoolismo. A dependência de álcool atinge uma pequena, mas significante parcela da população (3% - 5% nos países industrializados) mas o abuso de álcool ou o beber excessivo afeta uma porcentagem bem maior (15% - 40%). Os objetivos de um programa sistemático de intervenção breve no nível primário de atenção à saúde são dois: identificar e encaminhar o mais precocemente possível pessoas com dependência de álcool, de modo a prevenir os problemas decorrentes da dependência prolongada; identificar e ajudar pessoas que abusam do álcool que podem ou não se tornar dependentes a se prevenirem dos problemas decorrentes deste uso. Ao contrário do mito popular, as intervenções breves são efetivas em ambos os casos.
Apesar do AUDIT ser um questionário de fácil aplicação, alguns procedimentos devem ser observados de modo a aumentar a receptividade dos pacientes ao teste e qualidade e fidedignidade das respostas:
O entrevistador ou aplicador deve agir amigavelmente e não intimidar o paciente
os pacientes devem estar sóbrios e não necessitando de alguma intervenção de emergência
os pacientes devem receber uma explicação clara de que o questionário permitirá uma avaliação de suas condições de saúde
os pacientes devem receber quaisquer informações que possibilitem um melhor entendimento das perguntas
aos pacientes deve ser assegurada a confidencialidade das informações que ele fornecer através do questionário
Manual de intervenção breve para indivíduos com problemas decorrentes do uso de álcool atendidos nos serviços de atenção primária
Brief Intervention For Hazardous and Harmful Drinking: A Manual for Use in Primary Care
Thomas F. Babor
John C. Higgins-Biddle
World Health Organization - Department of Mental Health and Substance Dependence, 2004
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)
Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein